Sábado, 18 de Julho de 2009

PELOS, CORES, AMORES E...

Que me desculpem as feias, mas beleza é fundamental
(Vinicius de Moraes)

Anfostofolia era uma felina chic, da alta sociedade, que compõe o visual perua da madame na casa de quem mora. Da raça pixie bob, descendente do lince americano, tem rabo curto (5cm). Pedigree documentado. Tem direito o coleira de ametistas que combina com o reflexo que mandaram fazer em seus pelos. As pedras só não são brilhantes porque atrairiam seqüestradores e o resgate por ela, Anfostofolia, seria até maior do que o valor das pedras. Suas roupas são de grife e comprada na Daslu bichos; custam mais do que um salário mínimo as peças mais recentes. Come ração importada e para variar quitutes da Cat Bakery, feitos sem conservantes. Tem até plano de saúde especial. Anfostofolia já esteve na ilha de Caras, tirou fotos para um book e participou de um desfile para eleger a mais bela “gatosa” (gatona gostosa). Ganhou é claro.

Mas, aproveitando um descuido de madame, deu uma escapada e “namorou” o gatão da favela vizinha. Como ainda não se tinha inventado camisinha para felinos e os anticoncepcionais próprios eram daquele lote que o laboratório lançou errado – farinha pura – não deu outra: gravidez não desejada só descoberta quando da visita mensal ao veterinário que acompanhava sua saúde.

E aí a corrida: reserva de acomodações no Felinoeinstein, o hospital ISO 9000 e no momento certo Anfostofolia foi para a ala Vip. Apartamento privativo, com direito à acompanhante, madame naturalmente.

O veterinário teve que convocar, em regime de urgência, três assistentes e um anestesista para o “parto”. Para que Anfostofolia não sofresse, a equipe discutia: anestesia geral ou peridural? A natureza foi mais rápida e enquanto eles discutiam, os “bebês” começaram a nascer.

Como é natural nos felinos, sempre nascem vários “felininhos” e isso certamente aconteceu, mas, para que o (a) herdeiro fosse único e recebesse o mesmo tratamento da mãe sem direto a ciúmes entre irmãos, deu-se um “jeitinho” e só uma sobreviveu. E Anfostofolia ficou naturalmente frustrada porque nem a deixaram seguir sua natureza: cortar o cordão umbilical e romper o saco envolvente com os próprios dentes, gesto com que assumia a condição de mãe. Com tesouras esterilizadas e usando luvas próprias, os assistentes fizeram o serviço. Mesmo assim, Anfostofolia curtiu o nascimento. Já tinha sentido a emoção única dos movimentos da vida dentro de si, aquela sensação especial de ser fêmea; e agora se tornava “mãe”, um status “nunca dantes conseguido”. E logo quis ver sua obra prima. Nome já tinha: Filastolfa. Era lindinha, pelo azul de bolinhas pretas, cor herdada do pai um “gatão” pretinho.

No berçário foi a sensação. A revista Veja fez uma reportagem e a rede Globo mandou uma equipe para matéria do Fantástico. Madame orgulhosa exibia mãe e filha – Anfostofolia e Filastolfa.


Anfostofolia e Filastolfa continuaram na casa em que moravam com as mesmas mordomias. Na primeira consulta ao veterinário e por recomendação deste voltou ao Felinoeinstein para uma esterilização completa. Maternidade, nunca mais. Vigiada agora por um personal security, não pode mais dar as escapadas para suas noites de amor. Entristeceu, foi ficando depressiva e morreu antes de Filastolfa completar um ano.

Filastolfa herdou o personal security da mãe e não conseguiu dar nenhuma escapada, não conheceu o amor, não deu seus gemidos pelos telhados, não acordou casais pelo meio da noite para o amor da madrugada.
Virgem triste foi também definhando, seu pelo de um azul celeste foi clareando, clareando, clareando e ficou branco. Ela se tornou uma gatinha magrinha, anêmica branca de bolinhas pretas. Fantasmagórica.

Com esse visual não pode mais “enfeitar” a madame que tinha vergonha de desfilar com ela no colo. Encomendou ao veterinário outra gatinha. Desta vez escolheu uma de pelo verde com listas amarelas produzidas por reflexos. Já tinha então um adorno diferente para seguir para a Europa no tempo dos jogos da copa. Exibiria sua prenda brasileira nos desfiles do jet set internacional. E deu a ela o nome de Lady Di que certamente todos conheceriam. Nomes tupiniquins, nunca mais. Já então Filastolfa definhava como Anfostofolia e morreu mansinho, “como um passarinho”.

Moral da história: no mundo dos ricos a perenidade depende da aparência: Enfeiou, dançou.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

MALUQUICES DA NATUREZA

Complementando o texto “Uma aventura Biológica” encontrei mais alguns bichos fora e dentro da caverna.

O Mamute passeando pelos vastos espaços encontrou uma Dinossaura, se atraíram pelo tamanho e se apaixonaram. Afinal, muita disparidade não dá. Formaram um casal tranqüilo. Nasceram Dinomutes. E se os dois já eram fortes, o Dinamute mais ainda.

Em um cantinho da caverna, o carrapato e a formiga tiveram um namoro escandaloso. O carrapato vivia grudado nela que queria trabalhar e trabalhar. Afinal ela ficou sendo a provedora do lar e o carrapato agarrado demais, a todo ciclo fazia nasceram as carramigas e formipatos.

O namoro do caranguejo e do Jacaré foi difícil. Cada vez que a jacaroa beijava o caranguejo quase o engolia, tão grande era sua boca. Difícil era a jacaroa reconhecer o caranguejo macho da fêmea. Afinal era preciso virar o bicho de barriga para cima para ver a diferença. Além disso, quatro patas da jacaroa mais as 10 do caranguejo faziam uma enorme confusão. Mas sempre davam um jeitinho e nasceram Carajés e jacagueijos

Certinho mesmo deram a Esponja do mar e o Ouriço. Espinhudo como ele era, não conseguia dormir direito e quando "casou " com a esponja, arranjou um colchão macio, se enroscou nela e nunca mais se separaram. A macia e delicada esponja teve que se acostumar a levar umas espinhadas durante o "amor". Mas, valia à pena. A natureza resolve e nasceram ouriponjas e esporiços

A formiga se separou do carrapato e como era lésbica foi se juntar à cigarra e as duas recompuseram a fábula do La Fontaine. E viveram felizes para sempre.

Lá no canto havia dois bichos esquisitos. Nenhum dos dois tinha nem nome popular. TRILOBITA até que não era feia, mas era rastejante, de carapaça dura e tinha sobrado de uma das glaciações da terra. O ORNITORRINCO era já bem adiantado, um mamífero que botava ovos e tinha bico. Ambos velhos, na quarta ou quinta idade resolveram ficar juntos, mas não deu nada porque os hormônios já haviam acabado e os ovos já estavam passados.

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

UMA AVENTURA BIOLÓGICA

Escrita por Neuza Guerreiro de Carvalho (LFFCLUSP-HN)
a sigla já é um mistério. Decifre se for capaz

Era uma vez...
Há bilhões de anos, a “bola” que é o nosso planta ainda tinha a superfície mole mole, derretida, querendo esfriar e endurecer. E nesse processo se formaram “bolhas” no meio da rocha.

Segue o tempo, ventos e água vão desmanchando rochas, formando “terra” e as “bolhas” viram grutas.

Se a terra de cima da gruta tiver carbonato de cálcio, as rachaduras do teto deixam passar água e o carbonato. Vão pingando e formando as estalactites e estalagmites (1) que quando se juntam formam colunas : a gruta fica parecendo um paliteiro de lindas formas brancas.
Esse é o cenário da nossa história e nos a chamamos de A GRUTA DOS DIFERENTES.

A Arca de Noé que trouxera para as proximidades um casal de cada bicho, deixou abandonados os que sobraram da elite, os mal feitos, defeituosos ou feios demais. Foram se refugiar na gruta e assim ela também recebeu o nome de MANSÃO DOS EXCLUIDOS.

Aí ficaram lesmas, sapos, lagartos, um peixe elétrico ou poraquê (esse sim esquecido porque era importante na Arca), lagartixas, escorpiões, camarões, morcegos, ratos, pererecas, urubus, moscas, borboletas, minhocas, aranhas, centopéias e até um tatu que logo cavou sua toca e não se misturou;e um urubu que dava suas escapadas para seus vôos de exploração. Nem sempre casais.

E aí correu solto o “amor livre”, as “amizades coloridas” porque ninguém é de ferro. Nem os bichos.

As leis da Biologia de que animais diferentes não podem cruzar foi ignorada. Afinal aquela bicharada não tinha que dar satisfação à ninguém, nem a Darwin nem a Mendel.
E um olhar lânguido de cá, outro de lá; um sorriso estranho, mas sorriso, um rebolado sensual, ferohormonios se produzindo e circulando e novos casais foram se formando. Amores difíceis, transas complicadas, mas a Natureza dominando.

Passam os anos e um dia um cientista xereta chegou sem querer à gruta e se espantou. Encontrou sapocegos, cascatixas, morpiões, camarecas, perebu, mornhocas, barbanhas, araletas, urucamas sagartos, lesmaquê, sapotixas, sagartos, talvos, poltus, arapeias....
Dá para perceber que o mais assanhado era o sapo que namorou e casou com fêmeas de várias espécies.

Às vezes as transas foram até engraçadas: imagine uma centopéia com todas aquelas patas com o “aranho” com outras tantas. Uma confusão de patas. Mas, sempre deram um jeitinho e muitas arapéias foram geradas.

As pererecas viviam pulando pela gruta assustando um tranqüilo camarão acostumado às águas mansas. Tanto fez que o conquistou e as camarecas resultantes viviam o inverno na terra e o verão na água contentando o gosto de cada um dos pais.

O sapocego custou a aceitar dormir dependurado e a sapocega teimava em botar ovos (reprodução mais cômoda) do que parir bichinhos.

Já imaginaram uma cascavel presa por ventosas no teto da gruta? Era assim que ficava a cascatixa fruto da cascavel com a lagartixa.

O morpião macho sempre vivia apreensivo porque qualquer escorregão, qualquer olhar mais sensual para fêmeas da gruta, desencadeava a fúria de sua metade escorpião e a cauda empinava, o veneno se concentrava e a picada era uma ameaça para a outra metade.

Os perebus oscilavam entre uns míseros pulinhos pererecos e os vôos altos e elegantes da porção urubu.

Mornhocas eram esquisitas: os gens da minhoca predominaram e eram tubos anelados com asas e cara de rato. No inverno viviam em tubos cavados no solo e no verão procuram um lugar mais arejado se dependurando nas estalactites porque o teto estava congestionado pelas colunas calcarias e não deixava muito espaço.

Barbanhas eram lindas. Tinham asas coloridas, gostavam de espaços para voar e às vezes pediam carona para o urubu. Na gruta viviam trombando com as colunas. Tinham apenas oito patas porque por seleção natural a borboleta tinha perdido suas seis patas. Também 14 seriam demais. A natureza sabe o que faz (será que soube?). Se por azar a parte aranha da borbanha fosse de uma “viúva negra”, não adiantaria a beleza da parte borboleta porque depois da transa e da reprodução assegurada , a borbanha era literalmente assassinada.

Lesmaquê vinha de um poraquê que é um peixe elétrico e uma lesma já meio frustrada porque todos os seus irmãos moluscos tinham casa própria (as conchas) e ela não. Além disso, era lerda, rastejante e sem graça. Nem colorido tinha. Não sei o que o poraquê viu nela!!!!! Ele era ágil, “elétrico” e vivia dando choques nela para ver se ela se “ligava”

E por preconceito ou não, alguns ficaram do lado de fora da gruta: umas amebas chegadas com as grandes chuvas, umas pulgazinhas saltitantes que queriam mais espaço, carrapatos desesperançados de encontrar sangue quente...

As amebas ficaram se multiplicando tranqüilamente porque não precisavam de nenhum macho. Era só se dividir e dividir e dividir...

E ao ar livre, formaram-se rapidamente liquens que se estenderam pelo solo servindo de base a uns musgos que já eram vegetais melhorados. Aproveitavam a luz solar, faziam fotossíntese, geravam energia e formaram o seu ecossistema próprio.

Um dia...
As “crianças” dos novos bichos brincando pela gruta e curiosas como toda criança, foram remexer num cantinho esquecido da gruta. E acharam um OVO. Não um ovinho como o da sapa, mas um OVÃO. Chutaram o OVÃO como se fosse uma bola, brincaram tanto que acabaram por quebrar sua casca até bem dura. E, o “bebê” que nasceu ainda nem estava pronto e não sobreviveu. Ainda bem porque era horrível (como se os outros não fossem!!!!) Era o resultado do “amor” entre um Dinossauro e uma Pterodáctilus (2). Seria grande e pesado como o DINO e asas para voar, coisa que jamais faria pelo peso. Não era ainda um avião.

E aí, perdidos por esse mundo ainda árido, chegaram espécies também esquisitas, dois casais:
O Chipahomo com sua mulher homoleta e o homopangé com sua mulher homonhoca.
Eram o resultado de um cruzamento possível. Dois Homens recém chegados à espécie Homo sapiens estavam sós no seu espaço e só encontraram chipanzés para companhia; “namoraram” e deu o que deu.

Um deles achou a chipanzé fêmea bem ajeitada, “namorou” e “casou” dando muitos homopanzés. O segundo homem também “casou” com uma chipanzé, mas os genes se misturaram de maneira diferente e deu com resultado os chipahomos. Esses “monstrinhos” na busca de companheiras encontraram homonhocas e homoletas. Formaram casais felizes porque podiam andar livremente (ainda não tinha árvores) nus, com um rabo para ajudar no “namoro” porque além de mãos dadas tinham rabos entrelaçados. A homoleta é claro, era mais bonita que a homonhoca porque suas asas coloridas eram atrações sexuais e as cenas de ciúmes eram freqüentes. Como bons amigos às vezes eles trocavam de fêmea para variar. Não havia leis morais, só as da natureza. E eles viviam “tarados” com muitos hormônios circulando.

Os dois casais que se achavam mais evoluídos começara a querer mandar na comunidade da gruta e colocar restrições e comportamentos.

- Não pode isso...Não pode aquilo.... Se fizer isso vai ser castigado.... Imposições vindas de sua porção humana.

Não demorou muito virou bagunça, formaram-se partidos, partiram para a briga e acabaram se destruindo uns aos outros.

Os casais intrometidos ainda usaram amebas e bactérias para fazer a “guerra biológica” e aí o fim foi completo.

E a GRUTA DOS DIFERENTES ou MANSÃO DOS EXCLUIDOS ficou vazia, só com uma aguinha no fundo, bem transparente. Contaminada pelas toxinas das amebas traidoras, as águas não receberam mais nenhum ser vivo. E as brancas colunas eram fantasmagóricas.

FIM

1 – Estalactites são formações calcárias em grutas .Formam-se de cima para baixo com a forma determinada pela escorrer da água. Ficam como um cone pontiagudo porque o cálcio vai se solidificando de cima para baixo. Estalagmites são formações calcarias que se formam na direção da estalactite só que com formatos diferentes porque tem seu centro côncavo pelo pingo de água. Quando as duas se juntam forma-se uma coluna.

2 – Pterodáctilus –São seres intermediários entre Répteis e Aves. Tem corpo mais semelhante aos répteis (lagartos) e asas. São grandes e ilustram sempre figuras
de fosseis.

Procura-se alguém com habilidades artísticas para desenhar esses “belos” bichos. E aí o conto fica completo, ilustrado e tudo.


Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

A PRIMEIRA EDIFICAÇÃO PAULISTANA

A HISTÓRIA DO PÁTEO DO COLLEGIO

Usei a antiga grafia para melhor caracterizá-lo.

Aí está a semente, o espaço onde a cidade de São Paulo começou.
É o ponto de convergência direta ou indireta da travessa do Collégio (depois rua do Palácio e atualmente rua Anchieta);da rua do Tesouro (depois largo do Correio e depois ainda Largo do Tesouro); da Ladeira Municipal ( atual General Carneiro); da rua da Fundição (atual Floriano Peixoto)

Conta a história que vindos de São Vicente, a missão jesuítica escolheu o local principalmente porque era mais fácil a defesa contra os ataques dos índios. Já estava aqui o padre Leonardo Nunes desde 1950. O lugar tinha uma posição estratégica, ocupando o alto da colina – exatamente aqui – defendido por escarpas abruptas e acessíveis por um lado apenas. E, cercada por dois rios: o Tamanduatei e o Anhangabaú. O primeiro está hoje “encaixotado” em concreto e o segundo canalizado no subterrâneo do Vale do Anhangabaú.

A esse lugar chegaram 13 jesuítas, entre eles José de Anchieta e Manoel da Nóbrega que se reuniram em torno de uma cabana construída pelo cacique Tibiriçá.
O local servia ao mesmo tempo como dormitório, enfermaria, salas de aula, refeitório e cozinha. E também por algum tempo, como capela. Redes eram as camas e a fogueira fazia às vezes de cobertores.

Foi aí que se celebrou a missa de 25 de janeiro, a certidão de nascimento de São Paulo.

José de Anchieta nasceu nas ilhas Canárias em 1534, filho de pai basco (região basca da Espanha) e mãe judia. (portanto tinha apenas 20 anos quando chegou ao Brasil e em São Paulo). Anchieta era franzino, tinha roupas rotas e padecia de tuberculose. Alimentava-se mal e não dormia, muitas vezes mais do que duas horas. Ele pedia que de Santos lhe enviassem velas usadas de navios para que com o pano vestisse seus discípulos. Supria a falta de livros com cópias manuscritas que ele mesmo fazia.

Anchieta foi dramaturgo, escrevendo teatro usado na educação das crianças. Foi epistógrafo, através de suas cartas, a famosas Cartas de Anchieta onde dava conta de sua missão e ainda etnólogo e naturalista quando descrevia terras, homens, fauna, flora, comportamentos.

Anchieta foi também poeta quando em 1563 escreveu o famoso “Poema em louvor à Virgem Maria” entre os 5.731 poemas dedicados Virgem, em uma época em que foi refém dos índios tamoios em Ubatuba, durante cinco meses.

Morreu no Espírito Santo, em 1597, aos 63 anos.


A primeira habitação. ...E as seguintes.
A primeira habitação dos jesuítas foi a cabana construída pelos índios, de pau a pique (armação de paus e cipós preenchida com barro socado) com 14 passos de comprimento por 10 de largura. Essa casa serviu de base à Igreja e Colégio durante mais de um ano, a partir de 1554. Estava no alto da colina de Inhapuambuçú (o “morro que se vê de longe”), talvez por princípios doutrinários de que a igreja tem que ficar no alto.

Em 1566 aconteceu a primeira ampliação e a construção original recebeu oito cubículos para servir de residência aos jesuítas. Era o segundo colégio.

Em 1585 foi construído o terceiro colégio.

Durante os 13 anos em que os jesuítas estiveram longe da Vila – expulsos no ano de 1640 por disputa entre colonos e índios e só voltando em 1653 – nada se fez. Em 1650 só existiam ruínas. No ano da volta, um novo conjunto do Colégio foi construído agora de taipa de pilão, melhor do que o pau a pique.

Em 1745, nova ampliação com uma ala perpendicular do lado direito do edifício principal. E, novamente, em 1759 os jesuítas foram expulsos das colônias de Portugal, agora por decreto do Marquês de Pombal.

Os jesuítas só voltaram ao Brasil para recobrar seus direitos de espaço, em 1954, isto é, depois de 195 anos.

Nesse meio tempo, o governo se apropriou das terras da Companhia de Jesus e tudo é descaracterizado transformando-se em Palácio dos Governadores entre 1765 e 1908. Entre 1815 e 1877 nele funcionaram também a Secretaria do Governo e a Assembléia Provincial. Na ala perpendicular estavam instalados o Correio Geral e as repartições fiscais da província de São Paulo. Nessa data foi feita a urbanização do Páteo.

Em 1890 desabou a cimalha do templo de Anchieta e ele foi demolido em 1896, aumentando o espaço publico, que foi todo aproveitado para aumento das dependências do palácio. Antes de desabar tinha sido palco da célebre missa dos domingos ao meio dia, missa chique, freqüentada pela elite da cidade.

Ao lado do palácio passava a linha de bondes á tração animal, da Companhia Viação Paulista, que fazia o itinerário Carmo - Estação da Luz e que foi inaugurada a dois de outubro de 1872.

No final do século XIX, durante o governo de Florêncio de Abreu, o conjunto inteiramente remodelado assumiu feições neoclássicas condignas de sua categoria de sede do executivo. O largo na frente do colégio foi dotado de primorosos jardins e uma fonte. Carvalhos, caramanchões, vendedores de amor perfeito e violeta davam o toque colorido e romântico do lugar. Cantos de pássaros e ruídos urbanos dos bondes e das vozes davam o tom de espaço importante da cidade.
O espaço era franqueado ao público aos domingos que era atraído pelos saudosos concertos (retretas) das bandas de música do Corpo de Bombeiros e da Polícia permanente.
O coreto, bastante amplo e aberto em concha emergia no meio das árvores frondosas.
Pouco antes da entrada do jardim, no ângulo formado pelo largo do Tesouro e o início da ladeira, um artístico chafariz completava o conjunto, amenizando com sua escadaria o pronunciado declive local.
Foi palco de manifestações cívicas, e de concertos musicais.

Em 1912 a residência oficial do governo e a sede do governo foram transferidos para o Palácio dos Campos Elíseos e o prédio ocupado pela Secretaria da Educação. Em 1914 foi feita a reforma da torre e acréscimo da ala lateral.

Lugar nobre de São Paulo, em 1925 ganha para sua maior beleza o monumento à fundação de São Paulo. Obra do italiano Amadeu Zanni em granito e bronze. Consiste em uma coluna encimada pela figura de uma mulher de braços erguidos, simbolizando a glória. No pedestal, baixos-relevos com alegorias à catequese, à primeira missa, à defesa da cidade pelo cacique Tibiriçá e ao encontro dos padres jesuítas com os índios tamoios.
A inscrição diz “Glória imortal aos fundadores de São Paulo”.

Região importante para a administração da cidade, o Largo do Palácio, como era então chamado transformou-se em verdadeiro centro cívico. Aí se achavam lado a lado vários edifícios governamentais. A antiga Secretaria da Fazenda (1886-1891) e a antiga secretaria da Agricultura (1891-1896) remontam a essa época. Ambas de autoria de Ramos de Azevedo “o arquiteto oficial da cidade”,

Demolido o palácio em 1953 permitiu que o espaço fosse devolvido logo no ano seguinte para a Companhia de Jesus que então reconstruiu colégio e igreja, como monumento histórico e o “Páteo do Collégio” readquiriu sua feição primitiva em 1979.

Em 1979, nos 425 anos da Fundação de São Paulo, o Páteo já tinha sua verdadeira face.

Hoje no páteo há a igreja, o Museu de Anchieta, mas contrabalançando o histórico há as modernidades de um café simpático, uma praça de frente muito bem cuidada com um sino que badala a cada espaço de tempo, uma “praça” no lado de trás que, como alguém me disse, funciona como um oásis neste centro confuso que é hoje o antigo berço de São Paulo.

O PATEO DO COLLEGIO EM FOTOS





A TURMA DO PATEO DO COLLEGIO

Escrevi sobre a TURMA DO PÁTEO DO COLLÉGIO em maio de 2005

Quatro anos passados, para publicar sobre o grupo, o texto tem que ser repaginado; fazer a versão 2009.
Afinal tudo muda. Muda o ambiente, mudam as pessoas, muda o contexto social, muda o comportamento pessoal, mudam os relacionamentos.
Agora, continua uma tarde de terça feira .

O ano é 2009, o mês é julho e o dia é 01. Ainda não são 14 horas.

Venho das entranhas da terra, da maior estação do metrô paulistano e passo por uma Praça da Sé apinhada, desviando de “meninas-sanduíche” anunciando compra e venda de ouro, banquinhas de vendas de passes e cartões telefônicos, lupas - “especiais para ler a Bíblia” -, ambulantes de balas, chocolates, revistas e mil outras miudezas.

E já estou chegando ao Páteo do Collégio, espaço grande em torno do monumento “Gloria Imortal aos Fundadores de São Paulo” que chama o nosso olhar para cima. E não temos como deixar de ver também a torre do Banespa, um ponto alto da cidade, de onde é possível ter em uma visão de 360 graus, muita coisa da cidade. E olho também para a torre do edifício Rolim para não deixá-la abandonada de tudo, porque ninguém a conhece e ninguém lhe dá um olhar. Um edifício que merecia maior cuidado mas está lá sujinho. Já falei sobre ele.

Entro pelo Museu de Anchieta, passo pelo simpático café e chego ao páteo interno que abriga o restaurante e todo um espaço verde, com um chafariz, árvores que são casas de passarinhos, arbustos de café, uma linda jaboticabeira que no inverno fica repleta das negras frutinhas em seu caule, plantinhas mais baixas e bancos convidativos a uma reflexão relaxante.

Em 2005, sr. VICENTINHO, um velhinho miúdo, com seus passinhos arrastados e seus vivos olhinhos azuis um dos primeiros a chegar. Tem agora 92 anos e sua mulher, Iracema, não deixa mais ele sair, mas ele é sempre lembrado. O mais velho representante vivo da turma. Relembra seus tempos de dançarino. Está sempre procurando uma criança visitante para contar alguma coisa do seu tempo. Seu Vicentinho esteve pela última vez no Páteo em janeiro de 2007, época em que estava com 91 anos. Teve fraqueza nas pernas e não pode comparecer mais.

Geralmente sr. ALFREDO já está lá. Foi alfaiate na Vila Prudente muitos e muitos anos e sempre tem histórias novas para contar. Gosta de músicas antigas brasileiras – e fala com conhecimento de causa sobre sucessos de Francisco Alves, Orlando Silva, Sylvio Caldas. Como trabalhava em casa, ouvia muito o radio das 7h às 22h. É conhecido como o “rei da Memória” ou ‘Enciclopédia ambulante’. Gosta muito também de músicas argentinas (Gardel e Libertad Lamarque), mexicanas e a grande música italiana.

Se ainda não chegou, logo chega sr. HUGO GIOVANELLI com suas histórias de Carmem Miranda, de quem é grande fã e lembranças de seus tempos de morador da Vila Maria Zélia, lá no Belém. Quando chega, seu Hugo distribui simpatia, carinho aos baldes. Já escreveu um livrinho, MEMÓRIAS – HOJE AMANHÃ E SEMPRE – HUGO DE A a Z.

Sr. Hugo é um dos maiores colecionadores de objetos sobre a ‘Pequena Notável’ e em Agosto de 2008, realizou a exposição ‘HUGO RECORDA CARMEM’, na Vila Maria Zélia, com apoio da Associação Cultural do local. Foi lá que o grupo musical amador "Turma do Pateo" iniciou suas atividades.

Sr. Hugo não aparece com muita freqüencia ultimamente pois sua esposa, Dalila, não anda bem de saúde.

Do sr. HORMINDO RATAMERO agora temos só a imagem dele chegando, carregando sua almofadinha cor de ouro para tornar mais confortável o tempo em que estiver sentado para conversar. Do alto de seus 85 anos, só tinha palavras de simpatia sempre relembrando sua admiração por Carlos Gardel de quem tinha 500 gravações, e de quando cantou na Argentina em 1948. No grupo há mais 10 anos era considerado o rei do tango.
Sr. Hormindo sempre cantava sem avisar, “El dia em que me Quieras” ou ‘Por una cabeza’, tangos famosos de outrora. Hormindo cantava e encantava com sua verve.
Em 11 de junho de 2008 foi voar pelo infinito. Deixou muitas saudades.

MILTON, um jovem adulto com pouco mais de 30 anos, entre a maioria de idosos freqüenta o grupo desde que era menino de calças curtas. Seu hobby são músicas brasileiras que ele conhece a fundo. Trabalha na Biblioteca da FFLCH e só aparece quando a USP está em greve, o que acontece invariavelmente uma vez por ano. Hoje ele trouxe sua vitrolinha de manivela e uns discos 78 rpm. E todos se extasiam. Fazem questão dos chiados do disco.


O que tem em comum essa turma que está formando um grupo falante e alegre? É um grupo sem nome oficial, sem estatutos, sem regras e conhecido entre eles como Colecionadores de Discos Antigos.

O grupo inicial teve Roberto Gambardella, Roberto Braga, Braguinha, Alberto Guimarães, Maestro Santângelo, Wanderley, Edmundo, Figueiredo, Antonio Petti, Lomuto, Gouveia... E se reunia no Largo do Thesouro, perto da banca de jornal onde havia uns bancos. O interesse primordial era a troca ou venda de discos das décadas de 30, 40 e 50, informar onde havia esta ou aquela música, trocar informações. Começou há 25 anos, em 1985.

Logo passaram a se reunir já no Páteo, em um cantinho, onde hoje é o estacionamento. Depois da reforma do Pateo, passaram a se encontrar num espaço mais nobre, onde há mesas de cimento com mosaicos e bancos de ferro muito duros, mas ninguém presta muita atenção a isso.

O grupo aumentou, muitos já morreram, outros desapareceram, mas sempre há um grupo maior ou menor que está por lá, seja por gostar de música e de conversar sobre tal, seja porque elegeu o espaço como seu “ponto”.

Não há hora precisa para se chegar, mas é nas terças feiras a partir de 14 horas que o grupo se reúne. Também não há hora para terminar, mas as 17 horas os seguranças do lugar já dão indicações que fecharão as portas logo.

Hoje não se trocam mais muitos discos como antigamente, mas ainda há esse costume, continuam prestativos, gravam fitas e CDs uns para os outros, procuram músicas raras e estão sempre dispostos a trocar e compartilhar o que possuem.

Há muitos colecionadores de discos não só de 33rpm (LPs), mas muito 78 rpm, chegando a alguns milhares de discos para alguns. Os mais modestos têm de 3 a 5 mil títulos. Quem tem mais, tem 25 mil.
Há advogados, arquitetos, professores, representantes comerciais, alfaiates, funcionários públicos. A maioria já está aposentada e tem tempo de sobra para curtir o que gosta.

Nunca se joga conversa fora. Além de música fala-se de cinema, fotografia, resgata-se a memória da cidade e a memória pessoal. Nunca se discute política ou religião.

Vem chegando a PEROLA (Pérola, é o nome que ela mesma escolheu para si). Está sempre presente. Uma carioca extrovertida, bonita, charmosa, colorida e muito prestativa. É grande colecionadora de discos e tem mais de cinco mil LPs, todos catalogados, com capas restauradas. Tem seleção de Boleros Inesquecíveis uma jóia que faz a delícia dos que foram moços na década de 50. E tem muitos discos de fados também. Durante mais de cinco anos foi a única mulher e conseguiu penetrar nesse ‘Clube do Bolinha’, sem forçar.

Certa vez perguntei a Pérola se ela tinha alguma gravação do Adágio de Albinoni. E ela me gravou logo 10 versões diferentes da musica. Ultimamente tem aparecido menos. Sempre há outros compromissos.

HENRIQUE um apaixonado por músicas clássicas, entendido em ópera e tem gravações que são raridades. Sua bengala é sua marca registrada. Sempre me pergunta sobre a jornalista Neide Duarte, com quem tenho algum contato.

Chegam junto os dois Joaquins.

O Joaquim de Pinheiros gosta muito do Ary Barroso e Ray Conniff. Frequentava o auditório da Cidade do Radio, no Sumaré, e viu muito programa de auditório com a Dircinha Costa.

Joaquim Coimbra de Souza faleceu em outubro de 2005 . Apaixonado por musica erudita. Assistiu a Bidu Sayão na Europa e grandes óperas no Covent Garden, de Londres, Ópera de Paris, de Nápolis etc. Era um perfeccionista na reprodução do som dos 78 rpms, tendo importado uma quantidade enorme de agulhas de aço do Japão com a finalidade de ouvir apenas uma vez a reprodução do som dos ‘bolachões’.

Todos esperam pelo sr. Alberto, o NENÊ, no grupo desde os primórdios. É quem tem mais histórias a contar sobre o grupo. Gosta de musica brasileira e portuguêsa, tendo vendido sua coleção de discos raros portuguêses por uma bagatela a um colecionar europeu, tendo sido pago em muitos valiosos euros. Tem 25 mil 78 rpms e 6 mil LPs. Tem tudo do Orlando Silva e outras raridades.
É o sr. Nenê das rosquinhas, saudado por sr. Hormindo na musiquinha: “Quem gosta da rosquinha do Nenê sou eu! [bis] – Venha comer, venha provar. Tenho certeza você vai gostar, Oba!”
Sr. Nenê é também o “rei da piada”, pois sempre tem uma para cada ocasião. Viúvo por três vezes, ensaia um quarto relacionamento.

ADEMAR, DIRCE, VANDER, SIRLEY e eu, NEUZA, éramos recentes participantes em 2005. Chegamos por conta de uma outra atividade do Páteo e fomos ficando, adotados pelos mais antigos. Gostamos das conversas, não somos colecionadores, mas temos em comum o gosto por São Paulo, a memória de uma cidade como ela já foi, e a troca de experiências é enriquecedora.

ADEMAR toca trompete e gosta de montar rádios de galena. Não apareceu mais.

DIRCE era um bom papo. Morreu em 2008 e teve um belo gesto de compartilhamento quando deixou, por escolha própria, seu corpo todo doado para estudo depois de sua morte. Estava sempre em uma atividade ou outra, sempre gostou da companhia de amigos e deixou saudades.

VANDER Loureiro vem curtir lembranças do tempo em que era percussionista e era vocalista do conjunto The Beverlys, considerado os The Platters brasileiros. Hoje canta choros na loja de instrumentos musicais Contemporânea, na rua Gal. Osório.
.
SIRLEY sempre faz coro com outros que gostam de cantar marchinhas de carnaval, valsas ou canções antigas. Assídua, às vezes desaparece um tempo.


Enquanto espero pelos que ainda não chegaram, me dou conta que estou de frente para o que restou de uma construção de valor histórico para a cidade: um pedaço de uma parede de taipa de pilão da antiga sede jesuítica. E a história do Páteo vem aflorando à memória:

13 jesuítas, uma palhoça de 14 pés de comprimento e está fundado o centro de fé de educação de uma vila, futura cidade de São Paulo. A palhoça é aumentada, a igreja é construída, o seminário completa o conjunto. Muito trabalho, muito sacrifício, mas tudo é largado quando os jesuítas são expulsos do país e da sua vila. O governo toma posse, reforma, aproveita a “queda” da igreja e faz construir um grande palácio que é a sua sede. E o “Páteo do Collégio” vira “Largo do Palácio” com chafariz, coreto, obelisco, e tudo a que tem direito. Os jesuítas voltam no meio do século XX, o palácio é demolido e o lugar volta a ser o “Páteo do Collégio” com uma réplica do que teria sido a construção mais antiga. Mais uma reforma e agora o conjunto encanta pelo seu carisma, pela sua significação histórica e religiosa, seu restauro cuidadoso.

PAULO IABUTTI vem chegando. Há mais de 15 anos não falta a uma reunião. Neste 9 de junho de 2009 teve que vir acompanhado da irmã pois quebrou o braço justamente dentro da igreja do Pateo, quando foi pedir permissão ao padre para realização da festa de seu 83º aniversário no dia 31 de Maio de 2009.

Paulo está no grupo há 18 anos. É bastante ativo e eclético, gostando de todo tipo de musica, principalmente a brasileira, que ele diz ser a prima pobre de todas as músicas do mundo. Tem uma coleção de mais de 7.500 LPs, com uma grande seção das Big Bands norte-americanas entre 1935 e 1945. É filho do primeiro casamento mixto de japonês com brasileira, que aconteceu no Rio de Janeiro, tendo seus pais se mudado para São Paulo a tempo de Paulo nascer paulistano. Tem muitos livros sobre a história de São Paulo, nunca esquece o que promete, nem as balinhas de café, que já todos esperam.

ESTEVAM é advogado, e eu o achava meio ranzinza, até conhecê-lo melhor. Aí então tem muito a dizer. Por ”briguinhas de comadre” parou de vir ao Páteo em 2007. Agora reúne um grupinho mais seu no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), chegando lá mais tarde, para dar tempo a aqueles que estiveram no Páteo esticarem uma visita a ele.

THAIS MATARAZZO, 25 anos, formou-se engenheira elétrica pela Faculdade Mackenzie em 2008. Faz pesquisas sobre cantoras de rádio da época de ouro da musica popular brasileira - 30’s 40’ e 50’ . Tem muitos trabalhos publicados. Freqüenta as reuniões pelo menos há 5 anos. O grupo para ela é um celeiro de informações.
Atualmente exerce sua profissão de engenheira e faz jornalismo na UNINOVE, pois é o que ela realmente gosta. Possue um blog direcionado para amantes, fãs, colecionadores e admiradores da música popular brasileira e portuguesa das décadas de 1930 a 60. É a atual musa do grupo do Páteo

LUIZ AMORIM começou a freqüentar o Pateo em Outubro de 2004. É fã de musica brasileira, norte-americana e italiana. Já morou nos Estados Unidos e Austrália, conhece muito de cinema antigo e toca violão muito bem.

Sr. MAXIMO – Morava ali mesmo, no Parque Dom Pedro II. Foi florista de profissão e contava muitas coisas interessantes sobre a decoração das igrejas para casamentos nos anos 50 e de como chegou a fazer até 50 buquês de noiva em um único sábado. Morreu em meados de 2008.

“TONINHO PASSARINHEIRO” – Mais de 80 anos. No grupo há mais de 20 anos. Possui a discografia completa de Orlando Silva em 78 rpm e de outros cantores românticos da época de ouro. Era sempre citado pelo radialista Moraes Sarmento em seus programas radiofônicos, pois quando algum ouvinte pedia uma música e Sarmento não a tinha, seu Toninho Passarinheiro sempre arrumava a gravação dentre sua coleção maravilhosa.

Saudades de sr. ÂNGELO MANTOVANI – um eletrotécnico que em 2005 já tinha passado dos 80 anos, grande colecionador de rádios antigos. Ele era a história viva do rádio, com mais de mil horas gravadas em fita e devidamente catalogadas. No pretérito sim, pois quando tudo estava pronto para ser lançada a exposição “No ar... A Memória do Rádio”, no dia mesmo em que a exposição seria aberta ao público ali mesmo no espaço do Páteo, ele nos deixou. Foi fazer a rua “rodinha” lá no céu.

DO CARMO, senhora da alta sociedade da rua Oscar Freire, aparece no Pateo de vez em quando devido aos seus varios afazeres, mas toda vez é sempre bem recebida devido a sua alegria e simpatia.Vem sempre com seu motorista.

IRLEY ROCHA vem sempre. É irmã da famosa cantora Dolores Duran e tem muito o que contar. Tem o nome artístico de Denise Duran e voltou a cantar profissionalmente há pouco tempo. Sempre trás suas lembranças do Rio de Janeiro dos anos 50 e São Paulo dos anos 60.

E há outros que aparecem vez ou outra ou que chegam mais tarde.
Há a ‘banca dos advogados’:
- AMÉRICO, super simpático com sua boina ou chapéu, é um craque tanto no tribunal como no pick-up de uma victróla.
- J.L.FfERRETTI, ex diretor artístico da Radio Gazeta e produtor de discos da gravadora Continental, fez parte do conselho editorial que produziu a famosa coleção ‘Historia da MPB’ da Editora Abril nos anos 70.
- ARIOVALDO, que nunca dispensa o uso do terno-e-gravata e sua pastinha debaixo do braço e um cigarro entre os dedos.
- ESTEVAM, já citado, também faz parte dessa confraria.

Os advogados, principalmente aqueles formados pela São Francisco, são eruditos em Latim e métrica poética, coisa impensada nos dias de hoje, quando a cultura foi esmagada pela mediocridade geral.

Os novos: JJOÃO CARLOS MARTUCCI é meu amigo pessoal lá da musculação. Faz tempo que não aparece mas acaba dando o ar da graça porque chegar ao Páteo é vicio.

LUCIO, mora em Guarulhos, aparece de vez em quando mas sempre é bem recebido; ADERBAL, que chegou por convite, frequentou uns tempos e sumiu. Seu BRILHANTE, que reapareceu depois de longa ausência e sumiu de novo. Sumiços e reapaecimentos são comuns.

Sr. MANUEL, colecionador de filmes de Chaplin e seriados de aventura, que vem sempre acompanhado de sua mulher IVANY.

GOUVEIA, que foi guarda civil nos tempos áureos de São Paulo [pré-Ditadura, quando a polícia era civilizada e não militarizada] e fundador do Grupo fazia tempo que não aparecia mas apareceu hoje, dia 16. Mora em Itaquaquecetuba.

FAUSTO também faz parte do sub-grupo de colecionadores de seriados e filmes de aventura, além de ser um ‘expert’ no conhecimento da historia da musica brasileira.

LUIGI, grande apreciador de musica lírica e linguas estrangeiras. Está de viagem marcada para um giro pela Italia e Europa.

DENIS, responsável por uma produtora MasterClass, tem ido. Muito simpático se integrou rapidamente. Não é da turma dos “velhinhos”. Procura informações sobre Musica Popular Brasileira.

ROBERTO AZEVEDO , na faixa dos cinqüentões, mas com cara de quarentões, é especialista em arte Latino-americana, falando espanhol fluentemente, além de conhecer muito do início da historia do cinema norte-americano, alemão, brasileiro, japonês etc. Seus cabelos brancos traem o rosto de garoto.

GUILHERME THOMAZ DIB, 81 anos e ainda exerce a profissão de alfaiate. Mora em Belo Horizonte e a cada 15 dias aparece por trabalho e chega no Páteo.

IGNACIO, um senhor alto e alto, que canta tangos numa associação da rua Tabatinguera, além de samba-canções com a ‘Turma do Páteo’, um grupo musical iniciado em redor do sr. Hormindo Retamero, quando esse cantava tangos a capella.

MARA, já conhecia o pessoal do Pateo, mas começou a freqüenta-lo com mais assiduidade nos últimos tempos. Além de ter um acervo de milhares de discos e fitas sobre a MPB, possue uma bela voz e canta chorinhos como ninguém. Faz parte da ‘Turma-do-Páteo’ e, dizem, tem um romance com o Nenê.

RENÉ colecionador de mais de 600 gravações diferentes de “Aquarela do Brasil” .

HOMERO, comprador e vendedor de discos há 45 anos, já esteve no grupo há muitos anos e resolveu voltar inesperadamente. É fã de Sophia Loren.

Há ainda a “Ala dos Mais Jovens”, que começou, talvez, com o Milton Baungarten, depois Thais Matarazzo, e mais recentemente:

GABRIEL GONZAGA, vinte anos hoje, que toca violão e já acompanhou sumidades como Salomé Parisio, Luely Figueiró, Agnaldo Timóteo, Denise Duran etc. É fã de musica brasileira, principalmente da fase mecânica de nossa indústria fonográfica.

DIEGO, gaúcho de vinte-e-oito anos, que coleciona coisas sobre cinema e escreveu sua tese de faculdade sobre atores e atrizes brasileiros que trabalharam em Hollywood a partir dos anos 1920, trabalho que será publicado em futuro próximo.

BETO ABRANTES, vinte-e-sete anos, que gosta do início do rock and roll no Brasil, como Celly Campello, Sergio Murilo, Carlos Gonzaga, mas também de cantores românticos dos anos ’50 tais quais Lana Bittencourt, Cauby Peixoto, Titulares do Ritmo, Roberto Luna etc. Beto tb. é fã do Cinema Nacional, com Eliana Macedo encabeçando a lista, seguidos de Oscarito, Grande Otelo, Nancy Wanderley, Heloisa Helena, Catalano, Cyll Farney, Fada Santoro, Ankito, Fred, Anselmo Duarte e outros.

Entre o pessoal do Pateo há vários sub-grupos:

os ORLANDISTAS, fãs ferrenhos de Orlando Silva, os FRANCISQUISTAS ou CHIQUISTAS fãs incontestáveis de Francisco Alves, o ‘Rei da Voz’. Há ainda os CARMISTAS, fãs da eterna Carmen Miranda e, em número menor, os CALDISTAS, fãs do Sylvio Caldas, o caboclinho querido.

Há ainda o sub-grupo dos tecnocratas de gravações, como Milton, Roberto Azevedo, Manuel etc que são os entendidos em reprodução de discos, fitas cassettes, CDs, DVDs e todo tipo de ‘medium’ existente no mercado.

O sub-grupo dos fãs de cinema é quase que um grupo majoritário, sendo que o sub-grupo dos ‘fãs de cinema-de-aventura, ‘farwests’ e seriados’ do tipo ‘Flash Gordon’, ‘Deusa de Joba’, ‘A mão que aperta’ é bem restrito.

Com o sr. Hormindo havia o sub-grupo dos Tangueiros, que a Peróla fazia parte. Há o sub-grupo dos fãs de musica portuguesa, da qual Thais, sr. Gouveia, Manoel, Nenê e outros fazem parte.

Enfim, há uma variedade de sub-grupos entre os vários membros do grupo do Pateo do Collegio.

De vez em quando aparecem visitas para saber que grupo interessante é esse. Sempre é bem acolhido. Hoje, 16 de Junho de 2009, tivemos a visita de Pedro Paulo, 61 anos, portanto dentro da faixa etária da turma, que gosta da História de São Paulo, artes etc. Declamou uma poesia de Guilherme de Almeida para todos. Pode voltar quando quiser.

Em 2008 houve várias ‘baixas’ [falecimentos] no grupo:

sr. ALBANO, um homem magérrimo e simpático, que morava em Santos e sempre que podia subia a serra para participar das reuniões.

sr. BASILIO, simpaticíssimo alfaiate, especialista em Ary Barroso, que mudou-se para o interior do estado e pouco aparecia ultimamente.

sr. MÁXIMO, dono de um grande apartamento no Parque Dom Pedro II, já citado acima.

sr. HORMINDO RATAMERO, tristemente lembrado, foi enterrado no cemitério da Quarta Parada.

DIRCE, que sofria de linfoma há muito tempo, mas administrava a doença com sabedoria, finalmente foi vencida, mas de forma fulminantemente rápida, o que, de certa forma, foi bom, pois Dirce nem percebeu que estava seriamente enferma.

E assim como foi se formando devagar, também devagar vai se desfazendo o grupo. São mais de quatro horas da tarde, alguns vão para bem longe, outros ainda vão circular pelos sebos da região da Sé e rever velhos amigos.

- Tchau,
- Tchau...
Até terça. Não esqueça aquela minha música:

As “meninas” se despedem com beijinhos entre elas e com seus “velhinhos” e os “meninos” com apertos de mão ou abraços amigos.
Mais uma semana em que o Páteo do Collégio testemunha amizades, compartilhamentos, trocas e toda uma gama de sentimentos que fluem e conversas nada fiadas. Fazem uma sadia terapia.

Um lugar feliz de gente feliz

TEXTO DE NEUZA GUERREIRO DE CARVALHO
COLABORAÇÃO PRECIOSA DE LUIZ AMORIM.

VERSÃO 2009

Domingo, 21 de Junho de 2009

MEUS 12 DIAS "OCIOSOS"

Começaram no dia 10 de junho que já tem seu texto pronto (ping – pong...).Vim do Rio onde a temperatura estava nos 30 graus Celsius para a umidade, e no máximo 15 graus Celsius de São Paulo. Paguei um preço pela mudança , mas foi baixo por tudo de bom que aconteceu: atividades e espaços , cabeças e atitudes tudo diferente.
Uma parada na minha rotineira vida (será que é tão rotineira assim?)

Na quinta, 11, foi feriado. Passei o dia escrevendo para postagens nos dois Blogs. Problemas de família balançaram um pouco, mas não muito.

Na sexta, 12, dia dos Namorados não significou nada para mim. Fiz rotinas domesticas porque aqui também se come. Recebi alunas do Campos Salles que procuravam material para a festa dos 85 anos da escola. Veio mãe e duas meninas jovenzinhas. Consegui para elas um mundo de material que tenho no meu acervo. . Xerocaram para exposição.

Em seguida, no mesmo dia, com meia hora de intervalo, chegou o repórter Marcelo Guedes para entrevista gravada para a RedeTV. Foi um papo gostoso, acho que ficou boa a matéria porque ninguém me avisou e não vi. O Victor da banca de jornal viu. Também, já estou cansando e não faço questão de ir atrás.

Nos dias 13 e 14, sábado e domingo dei folga para o corpo que pedia descanso. A Natureza sabe o que faz Quando chega o limite pessoal há a somatização no ponto mais fraco. A diferença de temperatura do ar inspirado sensibiliza a mucosa do nariz e a rinite alérgica pega brava. Dois dias sem fazer absolutamente nada.
Errado: respeitei a Natureza e a ajudei. Pouca conversa, cama quentinha. Era um preparo para

O dia 15 foi meu dia de Glória. Ás 8:52h vai ao ar o programa MAIS VOCÊ de Ana Maria Braga. A parte do material que o repórter Felipe aprontou foi uma apresentação da entrevista, da conversa. Não foi um programa ao vivo, mas é com se fosse. Praticamente nada cortado - Não gosto de TV aos domingos - , foram quase 20 minutos de Globo. Uma enormidade considerando a abrangência da TV Globo. Comentários começaram a chegar com o programa ainda no ar. E não pararam. Telefonemas de amigas – Mercezinha e Cidinha as primeiras – Mercia, Do Carmo....

E o meu trabalho nesta segunda feira foi apenas responder aos comentários. Repetitivos, mas todos eles gentis e positivos. Minhas respostas foram básicas, mas para todos. Alguns tiveram respostas pessoais de acordo com o comentário. Pretendia fazer a relação de todos: os e-mails mandados, os orkut de convites, mas não consegui. Orkut não quero. Não tenho mais espaço na cabeça. Contatos sei que são da hora, da euforia. Depois esquecem. Mas relacionei os comentários e sei que foram mais de 300, vindos de várias partes do Brasil e alguns da Holanda, Portugal, Espanha, Itália, Boston, Mexico... Meia noite e ainda não tinha terminado.

Na terça quando levantei, já havia mais de 50 comentários esperando para serem respondidos. Não deu tempo de fazer nada porque fomos, eu e Nair a um debate na Associação Viva o Centro. O tema: Gestão Compartilhada na cidade de São Paulo. Ainda falo sobre isso. E ganhei um livro sobre São Paulo sobre a administração e atualizado até dezembro de 2008 que vai me ajudar muito.

Almoço com Nair e Margarete rendeu boas conversas.

Ainda fui ao Páteo. Estou trabalhando em um texto sobre o pessoal e fui colher mais informações além das que eu já tinha. Rendeu bem.

Na quarta 17, depois de resolver problemas bancários recomecei a responder os comentários. E varei a tarde e parte da noite. Jejum de 12 horas para exame de sangue, não é muito agradável.

Na quinta, 18, outro dia pesado. Muito vai e vem, muito ônibus e metrô. 8h no Instituto de Psiquiatria do HC, o LIM 27 (Laboratório de Investigação Médica) para exame de sangue, por conta da pesquisa a que me submeto (com muito orgulho, aliás). Depois avaliação pelo geriatra do grupo e pelo Psiquiatra coordenador do grupo Prof. Forlenza.

Deu tempo e voltei para casa mesmo sem pegar os medicamentos na farmácia. Saí em seguida para a Casa das Rosas para o ultimo tur para qual fui contratada. Turma boa, heterogênea porque se escreveram. Tem dado certo sempre, mas ninguém da administração fica por lá e não sabem da avaliação dos participantes.
Saio às 17h, de ônibus novamente, um bom pedaço a pé e já escurecendo. Nova bateria de testes neuropsicológicos para avaliar cognição, memória...Tudo relacionado à pesquisa sobre Lítio. Teste moderno com computador e muito gostoso de se fazer. Não muito fácil fiz em 25 minutos para um tempo limite de 35minutos. Terminou 20h. Bom pedaço à pé, já escuro mas acompanhada pela pesquisadora. Ônibus de novo e em casa 20:30. Que maratona.
Mas, não me sinto cansada mesmo.

Na sexta 19 li o jornal, fiz um pouco de hora e fui para a cidade de metrô para pegar o jornal onde estava publicada uma entrevista minha. . Andei rápido até a Sé, novamente metrô e Musculação. Vinha para casa quando as minhas amigas SEMI-NOVAS me ligaram. Esperavam-me para o almoço. E eu, que vergonha, tinha esquecido. Fui intimada a voltar à cidade para o café. E lá fiquei até 17h num papo gostoso com as queridas amigas. Aí sim voltei para casa, mas fiquei mais umas 3 horas para zerar as respostas aos comentários.

Sábado sem sair. Ordem em muitas coisas, escrevendo para os Blogs, separando fotos, procurando dados sobre o Ginásio Paulistano para alguém lá de Salvador que me pediu. A procura sempre demora bastante. Quando penso que estou em dia, o inesperado acontece.

Este domingo fecha com chave de ouro uma semana comprida, de 10 a 21 de junho. E este dia é especial. É o solstício de Inverno, o dia em que o inverno começou, exatamente às 2:46h.
10h da manhã saio com o carro. Com a metade de meu Corsa. Sinto-me gente.
Vou até o Morumbi (meio longinho) na Fundação Maria Luiza e Oscar Americano. Lugar lindíssimo.

A Fundação Maria Luisa e Oscar Americano foi instituída por Oscar Americano, em março de 1974, dois anos após o falecimento de Maria Luisa Ferraz Americano, doando à cidade de São Paulo, além da casa em que viveram com os filhos durante 20 anos, a coleção de obras de arte e extenso parque. Terreno de preservação ambiental de 75 000m²

Preservando a natureza, reunindo peças e documentos ligados à história do Brasil, realizando cursos, concertos e outras atividades culturais, a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano oferece aos visitantes um panorama do passado e do presente do País.

Parque e casa são projetos representativos do movimento moderno de arquitetura. O primeiro, de autoria de Otávio Augusto Teixeira Mendes, precedeu à construção da casa, concebida por Oswaldo Arthur Bratke.

Hoje o programa foi um recital de piano com Flavio Varani. Já o tinha ouvido algumas vezes inclusive ele nos falou sobre seu avô Vincenzo Pastore em aula da ECA em 2005. Programa variado com Villa Lobos, Paray (nunca ouvi) Chopin, Poulenc, Fauré e Liszt. Peças que exigem grande técnica culminaram com a Valsa Mephisto de Liszt Técnica com a marca registrada de Liszt que os pianistas penam para conseguir executar.

Depois, um abraço no pianista (quem sabe passa um pouco do gênio) e em quem eu encontrei lá: a Eudóxia,minha colega de Faculdade, e o Denis lá do Páteo e a mulher Ana Maria. Um chocolate gold, gentileza da Neste fechou a manhã de domingo. Vim direto, sem problemas com o carro que hoje deve estar se “afogando” porque está com o tanque cheio, coisa que não tem acontecido ultimamente.

E tem mais

Como postei no Topblog, (que é sobre São Paulo) mas não no Blog da VovoNeuza vou , vou transcrever:

“Dos passantes da Avenida Paulista, ninguém liga para o Parque Trianon. Nem para um descansozinho pequeno. Ninguém para e olha para o Anhanguera na sua imponência guardando a entrada do parque. Também, até há pouco tempo, ninguém sabia quem era. A placa identificadora tinha sido roubada. Agora, uma placa de plástico não atrai interessados.

Experimente olhar para o Parque pelo outro lado, embaixo do vão do MASP. Além da Mata Atlântica como fundo, a modernidade da avenida com ônibus de todas as cores, gente circulando também com todas cores, dão com certeza uma visão diferente da Avenida. Merece ser fotografada.

Então aproveite um final de semana e um final de domingo e mesmo se fizer frio vá conhecer o parque. Vá conhecer o FAUNO de Brecheret e a ARETUSA de Francisco Leopoldo e Silva. A ARETUSA e a NOSTALGIA eram as ninfas da pérgula do Antigo Trianon (onde hoje é o MASP)
ARETUSA hoje triste procura por sua companheira NOSTALGIA que está muito longe, perto do Jóquei Clube, suja, já sem alguns dedos. É uma história que depois eu conto”.

Espero você amanhã, domingo, em frente ao portão 4 do Parque Trianon. Há monitores e tudo é grátis.

Postei o texto como fator multiplicador. Não sei se foi lido.Insisti, motivei, e então tinha mesmo que ir.

Gostei muito. Às 18h parque fechado e então as meninas do grupo SABINA – escola parque do conhecimento - representante do planetário e morador do próprio parque começaram a monitoria pelo parque. Acho que entre 50 e 100 pessoa (sou péssima nesses cálculos). E foram andando e falando e explicando. Nada de novo para mim no que se referiu à Avenida Paulista. Intervenção para falar da NOSTALGIA (estátua “irmã” da estátua ARETUSA.Encontrei ouvidos atentos e interessados e vou retomar a defesa da NOSTALGIA. Até propusemos um lema:

NOSTALGIA QUER VOLTAR

O Parque TRIANON -PARQUE SIQUEIRA CAMPOS considerado um parque contemplativo no meio da Mata Atlântica e no meio da Avenida Paulista, merece um texto só seu. Está na fila para ser escrito.

E os meus 12 dias “ociosos” terminam neste solstício de inverno.
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Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

PING PONG - Uma aventura televisiva

PING - São Paulo - Rio de Janeiro saindo do aeroporto de Congonhas, as 7:00h.
Lugar bonito, movimentado, tropeçando em executivos com suas pastas de laptop inconfundíveis. Todos, mas todos mesmo os atendentes da TAM (não sei de outros) com sorrisos, me acompanhando cada passo.

O PING São Paulo – Rio acontece através do espaço. Para mim mais do que um espaço físico, um espaço no qual eu consigo imaginar uma giga biblioteca de conhecimentos, um ciber espaço. É aí que eu localizo o meu Google. Mas não deixo de, mais do que apenas olhar, ver o azul de um céu limpo, floquinhos brancos de nuvens e de sentir que estou solta e nem a gravidade me puxa para baixo. Vôo TAM até com café da manhã. Os executivos que saíram de casa quase de madrugada e deixaram companheiras e filhos ainda dormindo, são cuidados logo cedo para chegarem ao trabalho em forma.

De repente, um Pão de Açúcar que eu não via há muitos anos, que me trás uma lembrança de um tempo de sonhos, por volta de 1952. Como a memória dura!!!!
Nova visão conhecida:

- Olá Cristo, estou chegando.

Chego em uma hora. Um Rio de Janeiro diferente que agora só conheço pelas noticias, pelos eventos, pelas fotos. Mas como cidade mudou muito. Grandes vias, grandes túneis (afinal o Rio tem muitos morros que precisam ser dissecados e modernizados.)
O Rio tem o mar que não vi, mas percebi pelos guindastes do seu porto, dos grandes containeres, E um nome impresso em um deles - HAMBURG SUD –resgatou nova lembrança mais recente, de 1967. Primeira e única viagem de navio da HAMBURG SUD um navio misto de carga e apenas 12 passageiros para ter preferência nos portos. Para a Argentina. Qualquer dia eu conto.

40km percorridos conversando como motorista, que foi explicando o que é, na cidade a Linha Vermelha, a Linha Amarela. Me mostra a Candelária mas não sabe identificar outros prédios antigos que devem ter uma bela história. É difícil me orientar e saber se estou indo para a Zona Leste, ou Norte, ou Oeste. Nestes dias de mais folga vou acessar o Google Earth , localizar os espaços percorridos, imprimir e anexar a este texto. É como gosto de fazer.

Chegamos ao meu destino. Imagine onde? No PROJAC - Central Globo de Produções. Uma verdadeira fábrica de sonhos com a TV mais abrangente do país. Nunca teria imaginado que um dia estaria lá. Na verdade ainda na entendi porque investiram tanto no meu deslocamento, na atenção que me foi dada por “n” pessoas. Será que eu tenho realmente o valor que aparece? Se o que eu represento como uma mulher de 79 anos antenada, andando paralelamente ás mudanças sociais, culturais e tecnológicas, servir de incentivo a outras mulheres, então sim, entendo toda essa movimentação.

Mas, continuando:
Cheguei ao PROJAC, uma cidade dentro do Rio. Carrinho elétrico andando para lá e para cá. Uma gostosura principalmente se percebemos que não estamos poluindo o ambiente. Um ambiente que precisa ser preservado, porque tem tanto verde que as muitas construções não chegam a ser invasivas demais.

Não vejo novelas, mas sei de “orelhada” o que acontece na mídia. E reconheço os edifícios onde são gravada PARAISO (do Benedito Rui Barbosa, que assisti há muito, muito tempo, agora repaginada) CAMINHO DAS INDIAS (desculpem, nem sei quem é quem) BOCAS E CARAS (ou é CARAS E BOCAS?) confesso a minha ignorância. Porque nunca vi. Nesse horário estou na aula o em transito.

Chego nos domínios de um programa que atravessa os tempo, mas que vejo pouco porque sempre estou escrevendo, ou na rua. É o MAIS VOCÊ de há muito levado pela simpatia e competência de ANA MARIA BRAGA. Um mundo diferente, um outro mundo (veja a matéria clicando em http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM1058940-7822-EXEMPLO+DE+VITALIDADE,00.html ou no link que está em "A midia e eu" aí à direita).

Sala de espera agradável, lanchinhos variados, televisão ligada para acompanhar o programa que está acontecendo. Maquiadores, cabeleireiros, manicures, dão uma ajeitada no visual para a gravação. Passo por tudo isso. Converso bastante com gente muito linda, muito produzida, educada e gentil. Meus cabelos brancos impõem respeito que acabam em atenção maior.

E lá fui eu para a casa nova do Programa, MAIS VOCÊ. Toda transparente, toda moderna, com equipamento gravador de ultima geração. E gente, muita gente trabalhando. Não era uma aparição ao vivo, mas uma gravação para um programa que vai ao ar talvez na segunda, dia 15.

Toda aquela matéria que o repórter Felipe fez no dia 28 de abril aqui em casa e na Casa das Rosas, dia 04 de maio, já editada, foi exibida como apresentação do que eu faço em casa, meus trabalhos, minha agenda bastante fechada,. Na Casa das Rosas meu trabalho de ”guia turístico”. Uma bela reportagem.

Só então começou a conversa, minha com Ana Maria. Eu não tinha a menor idéia do que ela ia abordar entre as minhas atividades, mas a escolha foi bastante inteligente: ele usou a minha autobiografia que está em “Quem eu sou” do Blog da Vovoneuza. A partir do texto, salientou coisas que julgou interessante e foram aparecendo os “ganchos” de entrevista. Foi tudo natural, tranqüilo, gostoso, agradável e diferente. Despedidas com fotos, abraços de até logo!!, obrigada!! até mais!!

Voltinha de novo no carro elétrico, boa visão do conjunto e novamente na Linha Amarela em direção ao aeroporto Santos Dumont
Consegui antecipar o voo em 2 horas.

PONG – Rio de Janeiro - São Paulo saindo do aeroporto Santos Dumont às 14:15h. Belo aeroporto também. Moderno, é o aeroporto doméstico do Rio como Congonhas é para São Paulo.

- Até logo Pão de Açúcar!!
- Até mais Cristo!!

Agora, céu nem tão azul, mas nuvens mais bonitas. Estamos sobre elas que têm formas interessantes. Não mais esfiapadas como as da manhã, mas densas sem serem pesadas. Não de chumbo, mas de algodão compacto. De vez em quando um buraco onde se vê já o litoral paulista. Não sei identificar. Sou ruim em orientação. Nem próximo da cidade de São Paulo consigo me localizar

O vôo vai atrasar 15 minutos (diz o comandante) e foram mesmo 15 minutos cravados. Houve o que se chama empilhamento, quando a aterrisagem de outros vôos forma uma fila de aviões superpostos, que vão descendo um a um.

Chove em São Paulo, o tempo está encoberto e às 15:30 chegamos ao solo.

De novo me esperam e agora levamos mais tempo do aeroporto até aqui em casa do que do Rio de Janeiro a São Paulo (400km) Véspera de feriado, chuva e o congestionamento começa a aumentar. Chego em casa às 16:45h

Estive fora exatamente 11 horas e 15 minutos um PING PONG durante o dia.
São Paulo – Rio - São Paulo. E muita coisa aconteceu na minha vida. E quando eu registro se torna mais real.

Isto aconteceu no dia 10 de junho de 2009.

Anexo – Quando fui colocar a data, minha memória deu um salto para trás. Não sei explicar porque. Só sei que acontece.

Há exatamente 70 anos morria minha irmã Nelida (não é Nélida).

Ela nasceu no mesmo dia que eu - 9 de abril (não 12 de abril como sou legalmente registrada, mesmo tendo nascido em 9 de abril) com 4 anos de diferença, em 1934). Tinha uma doença congênita de ligação sistema arterial com venoso na altura da aorta) e morreu de uma pneumonia conseqüente em 10 de junho de 1939.

Apesar dessa minha memória bastante atuante, não me lembro nada de nossa convivência. (embora eu tivesse 9 anos quando ela morreu, idade suficiente para lembrar brincadeira de infância).

Só me lembro da hora de sua morte, do velório e do enterro.

Não tem explicação.

Domingo, 7 de Junho de 2009

O BAU DA MEMÓRIA

Há algo que desejamos que permaneça imóvel ao menos na velhice”: o conjunto de objetos que nos rodeiam. (...) eles nos dão um assentimento à nossa posição no mundo, à nossa identidade.(...) são nossos objetos biográficos<.
Ecléa Bosi - O tempo Vivo da memória.


Era uma vez um baú.
Como todo baú que se preza aquele também era de madeira e ocupava um lugar importante, na sala principal da casa.

Um dia, alguém ouviu um zum zum e se aproximando bem pode ouvir uma vozinha esganiçada falando, falando falando. Não dava nem tempo do seu parceiro argumentar ou dialogar.
O alguém foi se aproximando, abriu a tampa do baú e lá dentro encontrou objetos bastante diversos, ajeitados, dividindo um espaço comum. Foi fácil identificar de onde vinha a tal vozinha e de quem era.

- Pois é – dizia a Tesourinha - eu sou a moradora mais velha deste baú. Não a que mora há mais tempo, mas a mais velha em idade. Tenho quase cem anos e você deve andar por aí. Ganhamos o direito de estar aqui porque durante anos servimos a uma certa mocinha – que agora é a Bisa - no seu ofício de bordar a máquina. A máquina de costura e nós dois ajudamos nos belos bordados de rechilieu que se usava na época. Você furava o pano, ela bordava em volta e eu cortava o pano que sobrava para que o buraquinho ficasse bem redondinho e arrematado. Fomos esquecidos muito tempo, sempre estivemos guardados e aqui estamos nós fazendo parte de uma história de vida. Agora, nossa dona, a Bisa, tem 97 anos, mas se lembra que a profissão de bordadeira lhe permitiu sair de casa, trabalhar em lojas que produziam enxovais de noivas e dos bebês que inevitavelmente se seguiam a eles. Enxovais artesanais, característicos de um tempo e de uma classe social de elite.

Mas, olhe só Furador, não estamos sozinhos. Vamos conversar com os nossos vizinhos para ver o que eles têm para nos contar e nos dizer porque estão aqui também.

- Olhe lá que coisa grande. O que será?

- Parece uma mala.

- Não é uma mala não. É uma valise.

- Valise? O que é isso?

- Valise é uma maleta parecida com aquelas que os médicos bêbados de filmes de farwest americanos usavam com seus instrumentos e sua inseparável garrafinha de uísque.

- Dona Valise, porque a senhora está aqui?

- Durante alguns anos fui objeto de desejo de um senhor idoso, que tinha suas próprias manias, e depois de muito procurar alguém me deu de presente para ele. Desde então passei a carregar seus remédios – que não eram poucos - seu medidor de taxa de açúcar no sangue, seringas, insulina - Ele era diabético. Quando em viagem, eu levava também seus objetos pessoais. Hoje, guardo lembranças do que ele foi: as muitas lupas para poder ler, óculos especiais que ele sempre tentou melhorar usando sua criatividade – porque não enxergava bem, seu pincel de barba, o chaveiro preferido, a caneta pessoal sempre com tinta preta, a calculadora com números grandes, fácil de usar, o apito que servia para chamar alguém quando estava acamado, o boné com o nome que ele usava sem o menor constrangimento nas viagens de ônibus e metrô, e até alguns fios de cabelo, seu DNA preservado. Tenho espaço para que sejam guardados também objetos de sua companheira quando ela se for. Compartilhando espaços é como se ainda compartilhassem vidas.

Obrigada, obrigada. Dona Valise. A senhora sabe o que significam aqueles discos, fita e CD?

- Somos a reprodução sonora de um casamento. Os discos, pequenos, como se usava no meio do século XX, de 45rpm, é a gravação original. Foi uma grande surpresa porque ainda não era de uso comum gravar palavras de um casamento. Muitos anos depois, mais de 40, foram transformados em fitas e em um CD uma versão mais moderna. Produto da dedicação de um filho que queria preservar a voz do pai. Reproduzem duas vozes fazendo votos que assim ficaram eternizadas. Em qualquer tempo podem ser ouvidas, trazer lembranças, resgatar emoções e vivências de um momento de felicidade.

]Tesourinha e Furador continuam a bisbilhotar

- Olhe! Lá no fundo, há alguma coisa fofinha, que dá para a gente deitar e tirar um cochilo. Daqui dá para ver que são quatro casaquinhos de lã, bordados com datas: 1984, 1985, 1988. Vamos lá, contem para nós a sua história.

- Somos as lembranças de quatro bebês, quatro elos genéticos que são a esperança de imortalidade dos avós e dos pais. Agasalharam quatro meninos recém nascidos nas datas que os identificam e os situam num tempo real: André vestiu o que tem bordado -1984. Ele foi o primeiro neto, aquele que inaugurou o estado de avó da dona do Baú. Bruno e Tiago, os gêmeos, vestiram os de 1985.São as duas obras primas de um casal, ou, parodiando Machado de Assis em Esaú e Jacó , uma só em dois volumes. O casaquinho de 1988 foi do caçula Victor, que fechou com chave de ouro a coleção de netos dessa avó.
Representantes materiais de infantes que chegaram, encantaram e realizaram sonhos esquecidos de avós ansiosos. Merecemos viver neste Baú.

Eles continuam seu passeio xeretando a vida de seus vizinhos. Lá no cantinho, aproveitando um espacinho pequeno está uma caixinha feia, escura, velha.

- Por que será que ela está aqui?

- Conte para nós sua história - diz o Furador para a caixinha

- Tenho 80 anos. Fui de um tempo em que se tomava chá inglês e ele vinha de longe. Está escrito aqui: do Ceilão. A marca? Te Sol. Uma vez vazia, me usaram para guardar certas penas de aço que serviam para escrever letras todas rebuscadas de livros de contabilidade. O dono delas era guarda-livros- que hoje chamamos contabilistas. Não havia máquinas de escrever, era tudo manuscrito. Para que as penas não enferrujassem, misturou talco e ainda é o mesmo de mais de 70 anos. Felizmente talco não apodrece. Sou lembranças de um pai, de uma profissão, de uma época.

Deitados no fofinho dos casaquinhos de lã, Tesourinha e Furador não conseguem cochilar porque perto deles há duas velhinhas muito charmosas lembrando seus tempos de gloria:

- Você se lembra como nós nascemos?

- Claro que lembro. Fomos feitas para o aniversário de 80 anos daquela tia querida, sempre lembrada carregando uma trouxa de roupa na cabeça e cruzando a cidade para buscar roupa suja, que lavava e trazia de volta a roupa já limpa e passada. Em vez de 80 velas foram feitas 80 de nós, no capricho. Todas de vestidos diferentes, óculos, cabelinhos brancos e até calcinhas. Como fomos apreciadas e disputadas. Onde estarão as outras 78? Pelo menos nos deixaram juntas para matraquear. É um orgulho e um sossego participar deste Baú.

Desistindo de cochilar, Tesourinha e Furador continuam a falar de seus vizinhos.
Encontram duas caixinhas lindas, douradas e marchetadas como só se encontram em Toledo na Espanha. E o bate papo continua.

- Fomos presentes de um aluno distante, muito querido e escolhidas para abrigar objetos importantes. Eu aqui guardo um anelzinho simples, símbolo de um amor nascente. Um primeiro presente, uma primeira demonstração de carinho. E eu tenho um medalhão, restos de pilhagem em uma revolução que atingiu São Paulo de maneira violenta em 1924. Esquecido na devolução passou a fazer parte das jóias da família. Acho que nem de ouro é. Representa um contexto social conturbado, lembra uma cidade destruída e um povo apavorado, fugindo sem rumo. Vocês sabem alguma coisa sobre a revolução de 1924? Provavelmente não porque a que causou maior sensação na cidade foi a revolução de 1932. Mas, a de 24 foi muito mais agressiva para a cidade, que foi bombardeada, teve suas ruas transformadas em trincheiras, e muitos civis morreram. A Bisa sempre conta de uma mocinha que ao fechar uma janela foi atingida por uma bomba, morrendo na hora. O revoltoso comandante era Isidoro Dias Lopes e o povo, sem saber bem porque o elevou a herói. E no ano seguinte apareceram muitas crianças Isidoros homenageando o tenente revoltoso.

E a prosa continua.
- Lembra que eu falei que ajudamos a bordar os famosos rechilieus. Pois olha lá um bordado que nós ajudamos a fazer. Quando a nossa dona ia se casar, lá pelos idos de 1929, ela bordou todo seu enxoval à noite, quando voltava do trabalho. Bordou uma colcha e duas fronhas. Um primor e uma obra de arte. Só ficou a fronha, mas ela é uma prova de trabalho, habilidade, paciência, e foi também um ato de amor, quando junto com os pontos se misturavam os sonhos de moça, as expectativas de futuro. Com mais de 70 anos ainda está perfeita e vive com direitos de antiguidade e significação neste baú de memórias.

Outra vozinha se faz ouvir;
- Vocês não me viram aqui? Vejam como eu sou bonita. Branquinha, toda bordada e com laços de fitas, eu represento também uma época, costumes de então. Chamavam-me liseuse num francês muito pedante da época. Eu era especial porque acompanhava a camisola do dia. Vocês sabem o que isso significava? Naquela época –1953 - o costume era casar virgem e a noite de núpcias era realmente a primeira noite de um casal. A preparação era todo um ritual, a camisola tinha que ser branca – símbolo da virgindade, pureza e inocência Sobre a camisola ainda uma capinha, eu, para complementar o traje. E, num arroubo de praticidade, a liseuse servia para, nove meses depois cobrir os pudores de uma recém mãe quando amamentava seu primeiro filho. Tive ainda mais valor porque fui toda bordada à mão por uma amiga da família, uma baiana muito querida, extrovertida, alegre e sempre lembrada. Fui guardada como recordação de amores descobertos, intimidades aprendidas. Não se espantem. Casava-se virgem sim. Não havia ainda a pílula e o risco de uma gravidez fora do casamento marginalizava a mulher e o filho nascido fora dele era registrado como “natural” e considerado ilegítimo.

Agora é o Furador quem se assusta com uma velhona. É uma boneca agora muito grande,miniatura de uma velha ainda maior. Pergunta à boneca com quem ela se parece.

- Eu represento a Bisa. É como me chamam meus bisnetos. Participei de sua festa de 90 anos. Fui a decoração mais vistosa da festa porque fui bem feita e me parecia com a Bisa, então com 90 anos. Meus cabelos são tão brancos quando eram os dela e tenho até do meu lado uma cestinha com os tricôs e crochês que ela então fazia. Quem me fez foi a mesma que fez as ”velhinhas” . Foi uma festa muito bonita, emocionante e de surpresa. A dona da festa tem agora 97 anos e espero participar de sua festa de 100 anos.

Ainda curiosos querem saber que canudo de papel é aquele que está lá no canto. Desenrolado, já começa a contar sua história:

- Sou uma mensagem que cheguei lá do outro lado do mundo, da gelada Suécia e vim pela Internet. Quem me escreveu foi um senhor que lembrou seus tempos de escola e de uma professora meio maluca – a dona do Baú - que para explicar melhor seus temas, fazia corridas de baratas, dissecava sapos e minhocas, criava bicho da seda. Ele nunca se esqueceu dela e daquilo que aprendeu. Feliz ficou quem recebeu a mensagem porque lhe deu satisfação profissional e se sentiu lembrada. Guardou-me como um símbolo.

Satisfeitos com a explicação, Tesourinha e Furador, já apresentando sinais de cansaço, ainda querem saber o que são aqueles três pequenos livros feiosos com muita coisa escrita. Já motivado por ouvir as histórias dos outros vizinhos, um deles começa a falar:

- Somos diários, testemunhos escritos de um namoro e noivado, de um tempo vivido há 50 anos. Havia uma diferença bem nítida entre namoro (escondido, no portão e oficial) e noivado – quando já se começava a cuidar do enxoval com compromisso de casamento. Nestes diários, há o relato sincero de acertos e desacertos, descobertas e encantamentos. O dia-a-dia de uma mulher apaixonada, suas sensações, emoções e sentimentos.

E Tesourinha e Furador descansam agora até uma nova excursão pelo Baú para ouvir novas histórias e completar uma História de vida.

Chega por hoje diz Tesourinha. Há mais vizinhos aqui, mas vamos deixar para outro dia. Você percebeu Furador, que se nós pararmos para pensar, podemos conhecer uma história de vida, com os depoimentos desses objetos?

É, a vida se constitui de pequenos pedaços, pedrinhas de um mosaico que reunidas formam uma história.

O Baú existe, ocupa um cantinho privilegiado em minha casa e contem além dos objetos personagens da historia, muitos outros igualmente significativos.